essa puta

acho que não existe exemplo mais definitivo sobre a posição patriarcal machista e babaca da sociedade do que o momento em que uma mulher decide comprar um pacote de camisinhas.

no mercado, entre batatas, iogurtes, cervejas e macarrão, o tempo fecha quando uma moça de sapatilha para diante da sessão de plastiquinhos coloridos e não tem cacique cobra coral que dê jeito. ela não precisa nem escolher qual ela pretende levar que qualquer ser humano, homem ou mulher, já passa por ela estampando julgamentos na testa.

e essa moça vai ser julgada quando for pagar também. pela pessoa que está na frente dela, pela pessoa que está atrás dela, pela pessoa que vai registrar as compras, pelo locutor do supermecado, pela caixa registradora, pela cestinha.

porque imagina só, essa puta tem a audácia de vir esfregar na cara do mundo inteiro que ela tem uma vida sexual, assim, com essa cara lavada, sem nem ficar vermelha de vergonha. essa piranha decidiu não depender de um homem para tomar esse tipo de atitude e resolveu fazer por conta própria. essa biscate tem consciência dos perigos que ela corre se não tiver um negocio desses por perto quando alguma coisa acontecer, e seria melhor ela simplesmente reprimir ou deixar rolar no freestyle. essa vaca certamente não está pretendendo dar pro marido dela, porque se ela tivesse um, não precisaria disso. essa vagabunda deve estar levando esse pacote com seis não porque é mais barato, mas porque ela é uma devassa e pretende dar pra alguém 2x mais do que se comprasse apenas um pacote com três.

e se a vida é assim mesmo, prefiro esperar que nenhuma mulher se importe em ser essa puta, porque quem tem que se acostumar com isso não é ela. é todo mundo.

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durante dois minutos

aposto que você nem viu, mas em algum momento eu sentei na cama e comecei a pensar em como eu odiava o fato de você estar ali mas ao mesmo tempo pensava em vinte e sete motivos pelos quais eu queria que você estivesse e outros quinze ou dezesseis pelos quais eu não queria de maneira alguma que isso acontecesse. pensei então que talvez fosse melhor eu te acordar, mas não sabia se eu devia fazer isso de um jeito incrivelmente fofo ou incrivelmente babaca. e talvez quem sabe não sei fosse melhor eu te pedir pra ir embora daqui cinco dez quinze vinte vinte e cinco trinta minutos ou uma hora ou duas horas ou nunca mais. queria perguntar também que desculpa você teria pra dar se eu perguntasse o que você tava fazendo lá ou se você mesmo se perguntasse o que você tava fazendo lá ou se alguém que nem tava lá e não sabia disso perguntasse o que você tava fazendo lá. pensei em chá com biscoitos e uma conversa de horas, onde eu perguntaria também coisas das quais eu não gostaria de saber a resposta, e por saber disso você mudaria de assunto a cada frase. e de novo eu queria e não queria e queria e não queria e queria e não queria que esse dia tivesse acontecido. e na duvida entre querer e não querer e querer e não querer e querer e não querer eu decidi deitar de novo.

e esperar você me abraçar de novo.

mesmo que dormindo.

coisa que você fez.

e eu terminei os dois minutos mais longos já existidos dentro da minha cabeça.

 

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seu silêncio, minha dúvida

toda vez que alguém que tem mais de 12 anos para de falar comigo do nada eu me pergunto:
1) onde foi que eu errei?
2) porque essa pessoa também está errando?
3) quando foi que ultrapassamos o portal da quinta série?

eu já fiz isso com uma pá de gente por um monte de motivos, mas achei que estávamos todos concluindo que adultos resolvem problemas conversando, não? ou tem algum protocolo paralelo que assume que mediunidade é procedimento padrão e é muito mais legal tomar uma cerveja enquanto espera que a outra pessoa adivinhe o que você está pensando? ou todo mundo deve só tocar o foda-se e assumir que o outro não é importante, que o assunto não é importante e que tá tudo bem porque a gente pode simplesmente se ignorar e ok?

me liga, me manda um telegrama, me manda um sms, me manda um código-morse.
a gente consegue fazer melhor que isso.

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quem falei?

tava aqui lembrando de algumas poucas coisas da segunda (!!!) festa que eu fui no sábado. no meio das vagas recordações que tenho, sei que participei do seguinte diálogo:

“nossa, eu muito ficaria com você”
“isso significa que você pretende ficar comigo ou que só veio aqui me entregar a carta de intenção?”

meu eu-sóbria morre de inveja do meu eu-bêbada que não ficou overthinking a porra toda e conseguiu ser direta nesse nível. meu eu-bêbada me mata de orgulho mesmo quando dança axé dos anos 90. mas isso é outra história.

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em fevereiro

de férias, fazendo diarinho de viagem em: http://20quilos.wordpress.com 

🙂

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o texto que eu não escrevi.

esse é o texto que eu não escrevi sobre as coisas que eu não passei, ou que passei e disse que nunca mais passaria. sobre o tempo que não esperei, sobre as passagens que não comprei, sobre os dias que, em contagem regressiva, do calendário não cortei. é sobre a saudade dos abraços que não ganhei, dos beijos que não dei, dos passeios que não fiz, das pessoas que não conheci. e de você, que nunca vi.

curiosidade, talvez, pelas festas que não fui, os jantares que não participei, os shows que não assisti, as serenatas que eu não ouvi, as cervejas e os vinhos que não bebi, o pôr do sol que eu perdi, seu aniversário que eu não comemorei, os presentes que não te dei. todos os pratos que não cozinhei, as roupas sujas que não lavei, o frio que, ainda, nem passei. sobre aviões que não peguei, horas que não esperei, unhas que não roí, fios de cabelo que não arranquei, conversas de aeroporto que não escutei. 

ligações que ainda não recebi, mensagens que o servidor nem entregou. de tudo que eu já disse, sei lá o que foi que chegou.

mas também é o texto que eu escrevi pra falar do sim. o sim de ver toda noite, o sim de saber o dia inteiro, o sim de entender, de dividir, de respeitar. o sim de chegar em casa todo dia e saber que minha última palavra e meus últimos cinco minutos de lucidez foram dormir com você.

pra recomeçar tudo com sonhos que ainda não sonhei sobre dias que eu ainda não passei.

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fico feliz por você

se você esteve vivo, respirando e teve acesso a internet nas ultimas 24h, eu aposto que essa pesquisa aqui chegou até você.

não vou nem entrar no mérito do que é elogio e o que é abuso, o que é tentativa de aproximação positiva ou negativa. a gente nem devia estar discutindo isso, aliás, porque a forma como cada mulher reage a um estímulo X é diferente.

o que me atingiu como um raio e fritou meu cérebro foi ver comentários do tipo “nossa, quem são essas sete mil mulheres? eu nunca passei por isso.”

então se o negócio é falar na primeira pessoa do singular, aqui vou eu:

eu, como pessoa que passou por muita coisa, gostaria de dizer que sinto uma enorme felicidade por saber que alguém não passou. que bom que você nunca escolheu sua roupa pensando na sua segurança em relação ao local ou horário que ia sair. que bom que nunca tentaram te agarrar a força em uma balada. que bom que seu chefe nunca te submeteu a uma série de intimidações impróprias. que bom que ninguém nunca te assediou na rua a ponto de você se sentir ameaçada. que bom que ninguém nunca tocou em você quando você não quis. que bom que você não teve nenhuma experiência sexual traumatizante, que se refletisse em todas as suas relações pro resto da sua vida.

eu, que passei por algumas dessas coisas, consigo ficar feliz por você.
você que teve a sorte de não passar por nada disso, é incapaz de se comover com a história de outras pessoas.

sei que cada um reage de uma maneira, mas mesmo assim: que pena.

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