quando cartas

eu não sei o telefone de 97% dos meus amigos sem a ajuda de um catálogo telefônico. mas se você me perguntar o cep da minha vó, eu sei. e da outra vó também. e talvez de mais dois ou três amigos. e sei o cep da primeira casa que eu morei em brasilia. e da segunda. e da terceira.

minha infância inteira foi com cartas. mesmo que os e-mails já estivessem ridiculamente estabelecidos no fim dos anos 90, eu ainda mandava cartas. mandava até para pessoas que eu conhecia pela internet, porque parecia mais humano de alguma forma. depois da voz, minha letra era a segunda coisa mais humana disponível a distância.

hoje quis mandar tres recibos minúsculos por correio pro meu pai. pedi um envelope, a agência dos correios não tinha nada menor que um saco para A4. fui ao mercado, não existem envelopes. fui nas americanas, onde comprei muita coisa de papelaria na vida, nada de envelopes. nem mesmo envelopes de bichinho, que eu aceitaria de bom grado pra não desperdiçar tanto material a troco de nada.

ninguém vende envelopes porque ninguém compra envelopes. foi a primeira vez na vida que senti que a tecnologia tinha suprimido um pedacinho da minha memória.

envelheci ali mais uns dez anos.

Advertisements
This entry was posted in Uncategorized. Bookmark the permalink.

One Response to quando cartas

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s