bela cintra, já te amei.

a primeira coisa que eu senti foi alegria. quantas vezes eu não sonhei na vida em morar perto da paulista, do babado tiroteio e confusão da augusta? e se fosse pensar direitinho, era tão mais legal que moema que, apesar de ser são paulo, não era lá muito o que eu queria ou esperava de são paulo. e parecia um alinhamento cósmico: um quarto só pra mim, a uma quadra de tudo, duas quadras do que não tava incluso no tudo, a três quadras do metrô. parecia pouca coisa, mas pra quem saiu da casa da mãe em menos de uma semana com uma mala, chegar ali em menos de um ano parecia uma vitória.

e além de tudo isso, muitas coisas aconteciam ali nas imediações. bares, baladas, restaurante. como menina sozinha andando na rua a qualquer hora, saber que pessoas estariam passando por ali constantemente me dava uma sensação de menos insegurança. talvez fosse o melhor cenário possível.

os anos foram passando, não muitos. o suficiente pra não mudar de um dia pro outro, mas menos do que o necessário pra eu dizer que tudo mudou de uma década pra outra.

quando eu mudei, o geni já não existia, mas demorou muito para subir um prédio no terreno. lindo prédio, espelhado. até hoje sem ninguém dentro, com plaquinha de aluguel. meses depois, o sonique, aquele antro de zoeira que fazia com que meu sono fosse perturbado durante várias noites na semana também se foi. teve gente que achou que era reforma, mas não, só um pouquinho de especulação imobiliária. nessa mesma leva, fechou o tordesilhas. nunca entrei, não sei como era. das poucas vezes que olhei o site, por curiosidade, me pareceu aqueles restaurantes que você vai com a família pra comemorar o aniversário de alguma tia. de repente eu acordei e tinha uma placa dizendo que ele tinha ido embora, inteiro, pro outro lado da paulista. algum dia qualquer fui acordada pelo barulho da demolição, menos dois motivos para pessoas passarem por ali. no fim do ano passado, fecharam a escolinha construtivista que ficava ao lado da funhouse. eu não sei quantas vezes eu passei lá na frente bêbada e pensei “meus filhos que eu não quero ter, eles estudariam aqui”. vi o fim do parquinho e depois, quando derrubaram algumas partes do segundo andar, os desenhos das crianças nas paredes foram o ultimo resquício de que alguém passou ali. o que passa agora? carros. o terreno virou o estacionamento provisório de um stand de vendas de apartamento. um clássico do baixo augusta moderno. 

de repente eu já tinha horários para passar por cada caminho que leva até minha casa, rotas alternativas para situações diversas. conhecimento de causa, eu sei de onde as pessoas assaltadas sobem correndo e gritando, e ninguém faz nada. porque os porteiros dos prédios não se importam. eles cuidam de suas funções, seus esqueletos de concreto, seus bebês de vários andares. 

já quase convencida de que não me sentia mais segura por ali, alguém resolveu deixar uns pedaços de uma pessoa esquartejada a menos de 500m da minha casa. 

estou tranquila como nunca.

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2 Responses to bela cintra, já te amei.

  1. Piero says:

    Hahahahaha vai dizer que não da impressão que tamos vivendo numa cena de Blade Runner, o Caçador de Andróides ou seila e descobrem que na real tão negociando essas partes aí?

  2. Que tensão. :/
    Ali é uma região que não volta mais (pelo menos pelos próximos 50 anos, conhecendo os padrões da cidade).

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