para o ohio que (insira aqui sua piada)

ir para o ohio é uma daquelas histórias que certamente você vai querer contar pros netos. ou pros netos dos seus amigos, caso você mantenha a história de nunca ter filhos e, consequentemente, netos. o problema é que pra contar essa história você vai ter que inventar horas e horas de emoção que ohio – no meu caso, cleveland – é incapaz de proporcionar.

cleveland é um lugar lindo e incrivelmente sem graça que fica ali entre o norte dos estados unidos e o sul do canadá, mas eu fácil fácil chamaria de meio do nada. diz uma lenda que existem coisas fantásticas por lá, tipo universidade e hospitais. eu não tive tempo e nem procurei me informar. mas achei que era só a galera da conferência tentando convencer os atendees que estar lá não era tão ruim quanto parecia.

então a organização do rolê abriu os trabalhos num jantar dentro do museu do rock. ok, vamos refletir? o que tem em cleveland? nada. por quais diabos eles decidiram ter um museu do rock? jamais saberei. porque eu deveria me interessar em conhecer oito andares de história que sequer era deles? qual o meu grau de interesse em chegar no andar mais alto e encontrar aquele lindo vestido de bifes da lady gaga que ALIAS não é rock nem aqui nem na casa do caralho?

fui procurar comida. snacks recheados de objetos comestíveis não identificados, provavelmente carne (então me senti mais segura não testando) e uma mesa inteira de mac and cheese dos mais variados modelos. se você achou que a gororoba preferida dos americanos só podia ser feita com cheddar e ficar com aquela cara de vômito de gato, você está enganado. eu abracei sem medo o de queijo de cabra, mas ainda era possivel comer um de carne e um de lagosta, além do tradicional.

descobri no dia seguinte que eu era a única brasileira no recinto. provavelmente também a única de piercing, a única com tatuagens visíveis e CERTAMENTE a única que não se fez de rogada em aparecer em toda a agenda do evento com confortáveis e adoráveis tênis. o mundo do conteúdo lá fora é bem feio e atende quase sempre pelo nome de PR, o famoso relações públicas. e se veste como um coxinha. dentro do museu a primeira pessoa que conversou comigo foi a nancy, uma pessoa que eu certamente gostaria de matar com um machado se eu a conhecesse em outra ocasião.

nancy era uma patricinha sebosa que vivia em nova york. ela não manja de conteúdo, mas a editora em que ela trabalha achou que seria uma boa envia-la pra ohio. se eu achei a mina mala em quinze minutos de jantar, compadeço das reais intenções do chefe dela: manter a fofa longe por alguns dias. quando eu estava descobrindo que conheci mais do subúrbio da big apple em dois dias do que a nancy em sua vida inteira – CHINATOWN? CROOZES! – chegou o andrew. foi a hora em que eu comecei a considerar o suicídio.

andrew era um australiano bonitinho, com um sotaque chato e um ego indescritível. na verdade ele so sentou na nossa mesa pra nos contar que morava em palo alto. e tinha uma startup. e que dormia no quarto ao lado do zuckerberg. tenho certeza que nessa hora tinha um letreiro na minha testa com os seguintes dizeres: HOLLY SHIT THAT I DON’T CARE ABOUT. nancy estava deslumbrada. eu só queria mais mac and cheese.

levantei pra ir embora, nancy pegou o bonde. subindo a escada rolante vi uma tia daquelas que aparecia no 1406 em mil novecentos e pouquinho. cabelo da sandy na época da maria chiquinha descolorido, um tubinho laranja e um par de botas brancas. perguntei pra nancy que porra era aquela e ela respondeu “esse é um país livre”. pensei em perguntar se ela já tinha respondido um ds160 (o formulário de visto americano todo trabalhado na liberdade, inclusive religiosa), mas acho que ela não saberia o que é isso.

nos dias posteriores fiquei trancada nas salas de palestras, gastando meu inglês até o próximo ciclo de dinossauros na terra e investindo na dieta de croissants.

se eu fosse uma dessas loucas que soube em balança, certamente escreveria sobre ohio que te engorda.

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