eu não te amo

um dia eu acordei e ouvi um eu te amo. seria lindo se não fosse trágico. meu corpo endureceu, meus nervos entraram em pane. eu não queria responder eu também, eu não queria responder eu te amo, eu não queria responder nada. pra ser bem honesta, acho que naquele momento específico eu sequer queria estar ali. mas não era inadequado, ele não estava fazendo nada de errado. eu só não tinha me preparado pra isso, eu só não tinha planejado como responder a isso, eu não queria viver isso.

nunca quis responder um eu também que não fosse verdade. também já tinha sido o objeto de amando que teve seu sentimento recusado. algumas vezes, não poucas. mais confortável dizer eu te amo do que responder não te amo.

mas já disseram que

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

fora o joão que não tinha maturidade pra lidar com os próprios problemas, a teresa que preferiu botar sua vida na mão de uma entidade invisível, o raimundo que teve um azar lascado, a maria que decidiu não ter filhos e foi julgada, o joaquim que não fez terapia e abandonou os
remédios do psiquiatra e a lili que se deu bem, todo mundo sobreviveu.

não amar não mata ninguém.
na maioria das vezes.

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quando cartas

eu não sei o telefone de 97% dos meus amigos sem a ajuda de um catálogo telefônico. mas se você me perguntar o cep da minha vó, eu sei. e da outra vó também. e talvez de mais dois ou três amigos. e sei o cep da primeira casa que eu morei em brasilia. e da segunda. e da terceira.

minha infância inteira foi com cartas. mesmo que os e-mails já estivessem ridiculamente estabelecidos no fim dos anos 90, eu ainda mandava cartas. mandava até para pessoas que eu conhecia pela internet, porque parecia mais humano de alguma forma. depois da voz, minha letra era a segunda coisa mais humana disponível a distância.

hoje quis mandar tres recibos minúsculos por correio pro meu pai. pedi um envelope, a agência dos correios não tinha nada menor que um saco para A4. fui ao mercado, não existem envelopes. fui nas americanas, onde comprei muita coisa de papelaria na vida, nada de envelopes. nem mesmo envelopes de bichinho, que eu aceitaria de bom grado pra não desperdiçar tanto material a troco de nada.

ninguém vende envelopes porque ninguém compra envelopes. foi a primeira vez na vida que senti que a tecnologia tinha suprimido um pedacinho da minha memória.

envelheci ali mais uns dez anos.

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entre várias merdas

fiz mais uma merda entre tantas merdas na vida. sentei aqui e tentei contar quantas merdas eu já tinha feito. merda das boas, dessas que ofendem os outros, que destróem amizades, que pulverizam empregos, que geram blocks e rancores, lágrimas e pouco suor, porque eu sempre quis mas nunca botei alguém pra correr de verdade. assim, fisicamente falando.

merda dessas que fazem as pessoas duvidarem de mim, que fazem com que eu duvide de mim, que tirem meu sono. merda de se arrepender, merda de assumir o que eu fiz e passar na cara sem dó. merda dessas que eu levo pra terapia ou que eu fico remoendo três semanas antes de levar pra terapia. merda que vira gastrite, merda que vira texto.

merda que eu faço um belo artesanato e depois vendo em formato de duende da sorte pra vocês.

tem gente que compra. tem gente que lava.
e foram muitas.

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caso eu cozinhe pra você

ou caso eu já tenha feito comida pra você um dia, acho que existe uma meia dúzia de coisas que você deveria saber.

quando eu comecei a escrever, ainda adolescente e morando na casa dos meus pais, eu me definia como a inimiga do fogão. não dava pra entender como alguém jogava meia dúzia de coisas numa panela em cima do fogo – porra, fogo não, galera – e saía algo incrível e com cheiro bom e que me faria ter experiências e lembranças boas. mas ao mesmo tempo eu era a escudeira da mamãe.

mamãe é muito conhecida entre os amigos dela, os meus amigos, os amigos do meu pai, nossos parentes, nossos vizinhos, os amigos dos amigos de todo mundo, os amigos dos vizinhos e todo mundo que já colocou alguma coisa que ela fez num prato como uma pessoa que apenas: detona. e ela odeia mais que qualquer coisa na vida ter gente palpitando no que ela está fazendo. porque ela não repete a receita, porque toda vez alguma coisa muda, porque ela teve uma ideia nova e não quer em hipótese alguma ser questionada sobre se vai dar certo ou não. porque ela sabe que vai dar certo, mesmo quando diz que não.

nesse cenário eu era a assistente perfeita. eu não sabia porra nenhuma e, consciente disso, não tinha que opinar. era pra cortar a cebola, corta a cebola aí. era pra descascar a batata, descasca a batata aí. era pra lavar o arroz, lava o arroz aí. era pra fritar o macarrão do yakisoba, frita o macarrão aí. era pra mexer o risoto, mexe o risoto aí. e foram anos e anos.

então eu me mudei pra são paulo e bom, ninguém mais ia cozinhar pra mim. se eu descascasse a batata ela ia ficar lá, descascada, me olhando. se eu lavasse o arroz ele ia ficar lá também, molhadinho, cru e me olhando. comer fora todo dia é uma opção, mas cansa, engorda a pessoa e emagrece a conta corrente. 

de repente me vi de frente pra um fogão pensando em como eu podia ser aceita por ele, porque eu aceitava tudo que viesse dele de boinha. era tanto medo de fracassar, era tanto medo de não conseguir, era tanto medo de estragar tudo – reflexo de uma vida com medo de estragar tudo, mas outra história. começamos a nos entender quando eu descobri que tudo que eu tinha visto minha mãe fazer aos meus 5, aos meus 8, aos meus 12, aos meus 15, aos meus 18, aos meus 24 fazia parte de alguma área do meu cérebro. eu só precisava, a princípio, repetir.

e foi o que eu fiz durante muito tempo, pra mim. e só pra mim. então eu percebi que poderia fazer isso pra outras pessoas. gente que não manja nada, gente que tem preguiça, gente que quer comer algo que eu sei fazer e que ela não sabe, gente que eu quero por perto e posso e vou e ok estarei cozinhando pelo simples fato de ter uma desculpa pra ter por perto.

mas nem de longe isso foi fácil no início ou é fácil agora. além de achar tudo que eu faço uma merda, eu vou receber feedback e vou ter que lidar com ele. e vou ter que me virar pra fazer aquela coisa qualquer ser melhor da próxima vez. e eu sei que ficou sem sal, cara, porque eu prefiro que você coloque sal do que não tenha opção de tirar. é assim que eu rolo. desde a hora que eu fui comprar as coisas, eu tive medo de esquecer algo, eu tive medo de esquecer de perguntar e acabar comprando algo que você não gostasse de comer, eu tive medo de queimar tudo, de não cozinhar direito, de deixar tudo com gosto de corrimão de estação do metrô.

então se eu cozinhei pra você (ou disse que vou fazer um dia), saiba que: foi difícil. eu me questionei o tempo todo, quase chorei de alegria quando você comeu duas vezes, só respirei com calma quando você colocou o prato na pia e falou que tava fera. e se você disse que não tava fera, eu cheguei em casa e sentei na frente do armário e pensei no que eu teria feito melhor e como eu teria feito melhor. porque além de deixar meus medos de lado por você, sua opinião me importa pra caralho.

obrigada por comer o que quer que tenha sido. sem sal, sem gosto, mal-cozido ou a melhor qualquer coisa que eu já fiz.
a felicidade foi toda minha.

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a gente ainda pode ser amigo?

não sei vocês, mas fico angustiada toda vez que sinto que não atendi as expectativas de alguém que eu gosto. e com redes sociais e essa porra toda que fica em volta da gente todo dia, eu não consigo nem precisar quantas pessoas esperavam que eu fizesse coisas que eu não fiz, seja por falta de tempo, por falta de ter visto ou, óbvio, puro desinteresse.

então eu queria saber se a gente pode continuar amigo.

mesmo se eu não for na sua festa,
não der like na página da sua prima,
não comprar nada do seu brechó,
não me interessar pelos mesmos livros e músicas e filmes e séries,
não ir ao show da sua banda,
não escutar o novo EP da banda do seu irmão,
não ler o seu blog,
não gostar das suas poesias,
não achar suas fotos bonitas,
não compartilhar seu projeto de crowdfunding com todo mundo que eu conheço,
não achar que sua tatuagem é a mais legal ever,
não me interessar pelos jogos do time de algum esporte maluco que só você e mais cinco pessoas jogam,
não comparecer ao karaokê da firma,
não gostar de despedidas,
não fotografar seu casamento (mesmo que com o meu espertofone),
não me juntar às suas causas,
não participar dos seus movimentos sociais,
não votar pra que você ganhe uma promoção.

mesmo que eu não te siga no twitter e no instagram, que eu não seja sua amiga no facebook, que eu não acompanhe você no last.fm, no goodreads, no soundcloud, no flickr, no linkedin.

eu provavelmente quero fazer um monte dessas coisas com você e pra você, mas não todas, o tempo todo.

então a gente pode ser amigo só porque eu gosto de você e não porque eu estou participando de uma gincana?

a gente pode ser amigo, só?

🙂

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os bichos legais e as pessoas legais

vi alguém dizendo hoje que os gatos que tinha eram melhores que 90% dos seres humanos que essa pessoa conhecia. lembrei de quantas vezes eu mesma disse que cachorros eram melhores que pessoas. e agora, na beira dos trinta, louca de lacan e levando a terapia a sério, parei pra pensar como isso dizia muito pouco dos animais e das pessoas com quem eu comparava, mas dizia uma caralhada de coisas sobre mim.

a priori a gente compara bicho com gente não como se gente fosse bicho, mas como se tudo fosse humano. venho do livro de biologia e trago más notícias: você pode dar banho, no seu bicho, conversar com ele, ensina-lo a fazer coisas, colocar gravatinha e lacinho. nada disso importa porque nada disso fará dele uma pessoa.

além disso, tenho outra má notícia: ele não necessariamente é “melhor”, ele só consegue reagir menos aos seus desejos e expectativas. mesmo que a porra do gato arranhe seu sofá ou faça xixi na sua cama, ele ainda faz outras trocentas coisas fofas que oooooin que gracinha, eu briguei com ele e ele nem reclamou. eu deixei ele sem comida por 12h e ficou só feliz quando eu enchi o pote. nhooooo. 

e por ultimo e não menos importante, lidar com o seu bicho de estimação é tão mais fácil e tão mais legal que lidar com a frustração de as pessoas não serem o que você gostaria que elas fossem. que pessoa ruim essa que eu queria que gostasse de verde mas gosta de azul. e como fica cada dia mais dificil e impossível entender que todo mundo passou por uma pá de merda e está ali tentando conviver com elas ou superá-las ou ignorá-las ou a merda que for.

bichos são legais sim, mas pessoas são mais legais ainda. porque elas estão o tempo todo fazendo coisas que eu não queria que elas fizessem, para o bem ou para o mal. e dá-lhe surpresa.

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bela cintra, já te amei.

a primeira coisa que eu senti foi alegria. quantas vezes eu não sonhei na vida em morar perto da paulista, do babado tiroteio e confusão da augusta? e se fosse pensar direitinho, era tão mais legal que moema que, apesar de ser são paulo, não era lá muito o que eu queria ou esperava de são paulo. e parecia um alinhamento cósmico: um quarto só pra mim, a uma quadra de tudo, duas quadras do que não tava incluso no tudo, a três quadras do metrô. parecia pouca coisa, mas pra quem saiu da casa da mãe em menos de uma semana com uma mala, chegar ali em menos de um ano parecia uma vitória.

e além de tudo isso, muitas coisas aconteciam ali nas imediações. bares, baladas, restaurante. como menina sozinha andando na rua a qualquer hora, saber que pessoas estariam passando por ali constantemente me dava uma sensação de menos insegurança. talvez fosse o melhor cenário possível.

os anos foram passando, não muitos. o suficiente pra não mudar de um dia pro outro, mas menos do que o necessário pra eu dizer que tudo mudou de uma década pra outra.

quando eu mudei, o geni já não existia, mas demorou muito para subir um prédio no terreno. lindo prédio, espelhado. até hoje sem ninguém dentro, com plaquinha de aluguel. meses depois, o sonique, aquele antro de zoeira que fazia com que meu sono fosse perturbado durante várias noites na semana também se foi. teve gente que achou que era reforma, mas não, só um pouquinho de especulação imobiliária. nessa mesma leva, fechou o tordesilhas. nunca entrei, não sei como era. das poucas vezes que olhei o site, por curiosidade, me pareceu aqueles restaurantes que você vai com a família pra comemorar o aniversário de alguma tia. de repente eu acordei e tinha uma placa dizendo que ele tinha ido embora, inteiro, pro outro lado da paulista. algum dia qualquer fui acordada pelo barulho da demolição, menos dois motivos para pessoas passarem por ali. no fim do ano passado, fecharam a escolinha construtivista que ficava ao lado da funhouse. eu não sei quantas vezes eu passei lá na frente bêbada e pensei “meus filhos que eu não quero ter, eles estudariam aqui”. vi o fim do parquinho e depois, quando derrubaram algumas partes do segundo andar, os desenhos das crianças nas paredes foram o ultimo resquício de que alguém passou ali. o que passa agora? carros. o terreno virou o estacionamento provisório de um stand de vendas de apartamento. um clássico do baixo augusta moderno. 

de repente eu já tinha horários para passar por cada caminho que leva até minha casa, rotas alternativas para situações diversas. conhecimento de causa, eu sei de onde as pessoas assaltadas sobem correndo e gritando, e ninguém faz nada. porque os porteiros dos prédios não se importam. eles cuidam de suas funções, seus esqueletos de concreto, seus bebês de vários andares. 

já quase convencida de que não me sentia mais segura por ali, alguém resolveu deixar uns pedaços de uma pessoa esquartejada a menos de 500m da minha casa. 

estou tranquila como nunca.

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